Goela a baixo ou Pornopolítica

         

          "nunca como hoje a relação da violência com a política foi posta em termos tão ambíguos"

                                                                                        Giorgio Agamben, Sobre os limites da violência

 

 

    No inverno europeu de 1970, Giorgio Agamben, um jovem filósofo italiano de 28 anos de idade, publicou um ensaio com o título "Sobre os limites da violência" num jornal literário italiano chamado Nuovi Argomenti, após o mesmo ensaio ter sido recusado por uma revista de política. Logo após a sua publicação, Agamben tomou a liberdade de enviar o ensaio a Hannah Arendt, anexado a uma carta, datada de fevereiro do mesmo ano, em que ele se apresentava à filósofa alemã e na qual, ao fim, após se despedir e assinar, acrescentou as seguintes palavras em forma de post-scriptum: “You will excuse if I take the liberty of enclosing an essay on violence which I should have been unable to wright [sic] without the guide of your books.” Hannah Arendt viria a se referir ao ensaio de Agamben na edição alemã de On Violence no mesmo ano de 1970.

 

    O ensaio de Agamben é uma tentativa de pensar a relação entre violência e política, uma relação que deveria parecer à primeira vista paradoxal, na medida em que o campo da política é aquele que se institui em oposição à violência e mesmo substituindo-a. Como lembra Agamben, logo no início do ensaio: "Os gregos, que inventaram quase todos os conceitos dos quais atualmente fazemos uso para exprimir nossa experiência da política, designavam precisamente com o termo polis o modo de vida fundado sobre a palavra e não sobre a violência". A oposição entre violência e política advinha assim de uma oposição, ainda mais fundamental, entre violência e linguagem, pelo fato de a política ser instituída precisamente pela substuição da violência pela linguagem como modo fundamental de relação entre os homens. Haveria, portanto, uma "identificação da política com a linguagem e a compreensão da linguagem como esfera da não-violência".

    Mas Agamben lembra que nossa experiência da política é totalmente diversa daquela dos gregos e que, nesse sentido,  "a identificação da linguagem com a esfera da não-violência deve necessariamente sofrer alguma restrição" se quisermos entender a política do nosso tempo, já que esta está baseada numa estranha relação entre violência e linguagem que "é uma das características que mais claramente distingue a nossa experiência política daquela da antiguidade".

    É nesse ponto do ensaio que Agamben faz, surpreendentemente, referência à pornografia e precisamente para pensar essa relação entre violência e política ou entre violência e linguagem:

 

    A explosão da pornografia a partir do fim do século XVIII de fato não é senão a descoberta (destinada a logo em seguida sair do terreno relativamente inócuo da literatura) de que determinadas expressões linguísticas em um certo contexto podem produzir sobre quem as percebe um efeito que resta subtraído de sua vontade. Esse efeito, que, ao agir sobre o patrimônio instintivo do corpo humano, passa por cima da vontade e opera aquela redução do homem à natureza – que é o procedimento típico da violência –, é a excitação erótica. Assim, aquilo que constitui o fascínio da pornografia é precisamente a aparição da violência no reino mesmo da não-violência, isto é, na linguagem.

 

    Mas Agamben também vê essa expressão linguística da violência, característica da pornografia, "presente em uma forma de expressão linguística que se costuma situar no lugar mais alto da hierarquia dos valores culturais: a expressão poética." É nesse sentido que ele estabelece uma ligação bastante insuspeita entre o Marques de Sade ("O mais sério e coerente dos teóricos da pornografia") e "Hölderlin (que é apenas o primeiro de uma longa série de poetas que se serviriam de imagens de violência para descrever sua experiência da poesia)".

 

    Um igualmente insuspeito encontro entre arte e pornografia enquanto algo que nos permitiria pensar as relações entre política e violência em nosso tempo: eis com que nos deparamos frente ao trabalho de Natali Tubenchlak. A artista niteroiense, por um caminho totalmente intuitivo, e partindo de sua própria experiência, observação e sensibilidade para a questão relativa ao exercício do poder que envolve a sexualidade, nos traz para o centro de uma relação bastante ambígua e sobredeterminada entre arte, política e pornografia. A partir de imagens encontradas em revistas pornográficas da década de 1970, produzidas ou em circulação no Brasil no período da ditadura militar, Natali produz uma série de gravuras em metal de "linguadas" e "chupadas" em que os órgãos sexuais linguados e chupados das fotos originais são retirados mas permanecem de algum modo presentes pela referência a eles que é sugerida pelas bocas e línguas desses rostos em transe sexual, dos homens e das mulheres fotografados. Destacados da cena em que se encontram nas publicações originais, esses rostos ainda remetem ao ato sexual em que surgiram, mas suas imagens nos lembram também, por tabela, do momento político em que foram produzidas e consumidas. Há ainda um outro elemento ausente/presente além do órgão sexual que falta: o regime autoritário. Que a pornochanchada brasileira tenha experimentado o seu apogeu exatamente no momento de maior ferocidade da ditadura militar brasileira deve ser suficiente para que nós nos perguntemos sobre as relações aparentemente contraditórias entre pornografia e política. Talvez tenhamos que ir mais longe e especularmos sobre as estreitas relações entre obscenidade e poder cujos traços se tornam assustadoramente visíveis no processo kafkiano. 

 

    Essa relação entre pornografia e política, essa pornopolítica, fica ainda mais explícita na série de "linguadas" que Natali justapõe, em colagens, a imagens fotográficas de pessoas atingidas com balas de borracha durante as manifestações de junho de 2013 no Brasil. Há aqui um caminho ainda mais intrincado a ser percorrido que o anterior e que, em Natali, se transforma também numa passagem de uma técnica artística para outra: da fotografia pornográfica, para a gravura em metal e, desta, de volta para a fotografia, agora jornalística e de conteúdo explicitamente político. O encontro entre esses dois rostos, o pornográfico e o político, o gravado e o fotografado, produz naquele que olha um estranhamento em relação à sua própria história e sexualidade. A linguada vem lamber não mais um órgão sexual, mas não deixa mais, como na série anterior, um lugar vazio: no lugar do órgão sexual que falta, uma ferida produzida por um tiro de bala de borracha, desnudando a relação entre política e violência no nosso tempo. Um tempo marcado, é preciso acrescentar, por aquilo que poderíamos chamar de "pornotização das relações sexuais cotidianas", na medida em que, na atualidade, dotados das câmeras dos nossos smartphones, todos nós somos, cotidianamente, ao mesmo tempo, diretores e atores, produtores, exibidores e consumidores de filmes pornôs que criamos e a que assistimos em nosso dia-a-dia. Que o capitalismo e a ciência tenham desenvolvido essa consequência histórica não pode mais ser entendido por nós como um traço acidental. A pornografia traz uma verdade sobre o nosso tempo da qual não podemos mais escapar. O trabalho de Natali Tubenchlak vem em boa hora nos falar sobre isso.

 

 

Cláudio Oliveira